quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O mendigo e o regresso.

. . .

Ele parou à porta. Estava roto. Fedia muito, a sujidade impregnada sob as unhas, nas dobras dos sovacos e das virilhas.

Bateu o bordão na porta em três pancadinhas e sentou-se na varanda, vencido pelo cansaço.

Dentro da casa escura, o silêncio era total. Mas a mulher ouviu o barulho. Apreensiva, chamou o novo marido:

-Amor, você ouviu?

O novo marido virou-se para o outro lado, ressonando. A mulher ficou com os olhos esbugalhados na escuridão.

O mendigo pegou um pedrisco e atirou no telhado, como se aquilo pudesse ajudá-lo a varar as infinitas horas nas quais se resumiam suas vadiagens pelas horas ermas.

A mulher sentou-se na cama, agora certa de que ouvira algo.

-Pablo, levanta! Tem alguém no quintal! Eu ouvi.

Com custo o novo marido se levantou, resmungando. Ela deveria estar enganada.

-Tenho certeza que ouvi um pedregulho rolar pelo telhado. E antes já tinha ouvido passos no quintal.

Cautelosamente o marido acendeu a luz de fora e vasculhou com os olhos toda a extensão do quintal. Depois voltou vencido para o quarto.

-Não há nada lá fora, mulher. Agora dorme.

O mendigo ainda estava lá. Encolhido na porta sob a varanda, roto, sujo, visível.

Saiu chutando pedrinhas, ganhou as ruas silenciosas. Não sabia mais para onde vagar. A casa era sua, a mulher era sua, a noite era sua. Mas estava muito fraco para lutar pela sua alma.

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